
Neste mundo conturbado e vazio de valores, lembro-me muito de ti Xavito! Representas o exemplo de lealdade, sacrificando se necessário fosse, a própria vida pelo amigo. Esse amigo era o meu Pai.
Tinhas um porte altivo(nunca me quizeste dizer se eras filho ou descendente de soba) e os teus cabelos brancos representa na tua raça, uma proventa idade.
Desde que me recordo de mim, sempre te vi lá em casa.
Estavas encarregue de tratar do jardim, dos carros e dos cães. E foi nesta tua função que criaste um elo tão forte com o Pai e ele contigo. Juntos partiam aos fins de semana para a caça às perdizes com o par de pointers.
Foste tu que viste o Pai não conter as lágrimas quando o Pó "marrou" a sua 1ª perdiz! Foste tu que ouvias os seus desabafos, as suas preocupações os seus sonhos, enquanto percorriam a savana africana ao mesmo tempo que estavas alerta para algum perigo que puderia surgir ao Pai. O fim da "jornada" transportavas feliz a perdizes à cintura e quantas vezes, um dos cães ao colo!
Durante a semana e quando tinhas a certeza que as tuas funções tinham terminado é que me deixavas ir para o pé de ti e aí conversavamos: contavas-me lendas, remédios e feitiços, danças e canções da tua terra, peripécia de alguma caçada e terminavas sempre dizendo:
- Menina o patrão devia ser padre.
- Porquê Xavito?
- Porque é um homem bom e justo.
Um dia viste-nos partir para o "puto". O Pai ficou mas em períodos certos vinha visitar-nos e tu ficavas a tomar conta da casa, dos carros, dos cães, na esperança de que um dia voltariamos todos juntos.
Certo dia, ao fim da tarde, tocaram à campainha dois homens com um camião tir.
- O Sr. já não regressa e pediu para carregarmos tudo a fim de mandarmos no 1º barco para Portugal.
- Espera que eu vou buscar as chaves para abrir a porta principal.
Não trazias as chaves mas sim uma caçadeira (uma das que tantas vezes vos acompanhou) e ameaçaste que atiravas ao primeiro que avançasse. Fugiram. O Pai quando regressou soube disto e tu respondeste:
- Patrão eu tinha a certeza que se não voltasse a Luanda eu era o 1º a saber.
Infelizmente um dia o Pai teve mesmo que regressar avisando-te que não sabia quando ou se poderia um dia voltar mas pediu-te:
-Xavito fica aqui a tomar conta da nossa casa.
Soubemos muito mais tarde que o bairro onde viviamos foi destinado à numenclatura cubana e a nossa (tua) casa ocupada por um alto dirigente.
Desta vez nada podias fazer e também tu partiste. Não conseguimos saber se ficaste em Luanda, se foste para a tua terra ou simplesmente se tiveste que te esconder.
Partiste. Pergunto-me se não terás ido ao encontro do teu Amigo e já estaram juntos novamente.
Se assim fôr como fico feliz Xavito!!!